quinta-feira, 11 de junho de 2009

Deputado Wallace rompe silêncio com imagens e simulacros

Em qualquer manual de Teoria da Comunicação encontramos as formas possíveis de transmitirmos uma mensagem. Linguagem Fática, Emotiva, Racional, Apelativa, e tantas outras funções, compõem um vasto leque de variações e possibilidades de comunicação entre emissor e receptor. De todas estas, certamente a que requer menor grau de entedimento, é a Emotiva. Epistemológicamente é a mais acessível, qualquer quadrúpede tem condições de interpretá-la. Alguns, mais engenhosos, dizem que até mesmo legumes e vegetais as usam.

A complexidade de uma ervilha, sabemos, já fora bem estudada por Gregor Mendel. Já os tomateiros, por exemplo (sim! tomateiros, vulgo pé de tomate), ao serem atacados por um inseto se comunicam pelo odor. O primeiro tomateiro atacado lança um sinal químico aos outros tomateiros vizinhos como forma de aviso. Agora vejamos, usar linguagem tão superficial (emotiva-apelativa) para contestar acusações tão contundentes é certamente algo que só acontece no politicário tupiniquim.

Na tarde de ontem o Deputado Estadual [do Amazonas] Wallace Souza subiu à tribuna da Assembléia para se pronunciar sobre as acusações que lhes são atribuídas pelo MPE sobre seu suposto envolvimento com tráfico de drogas, tráfico de armas, formação de quadrilha, corrupção de menores, coação de testemunha, improbidade administrativa, etc. Enfim, após alguns meses de silêncio, eis que o deputado falaria à sociedade. E falaria em ocasião ímpar. Naquela Sessão Odinária seria votado parecer da CCJ sobre a admissibilidade, ou não, de instauração processual em Comissão de Ética para ser apurada possível quebra de decoro parlamentar, tendo em vista tantas as acusações.

Especulações à mil e cenário armado - cogitava-se até mesmo uma possível renúncia - o que se viu foi um ataque às faculdades mentais do povo amazonense em um claro exemplo do nível de discussão a que chegou nosso parlamento: marasmo, paralisia, letargia, cinismo e demagogia.

Da tribuna do povo o Orador orou! Apenas orou. Clamou pelo nome de Deus tantas vezes que o Próprio deve ter se sentido incomodado.

Quando enfim, anunciou fatos, caiu no vazio. Num ato de desespero, imagino, apresentou um vídeo que mostrava de forma totalmente ilegível duas cenas recortadas que podem ser um monte de coisas. Uma imagem que pode ser tudo e coisa alguma ao mesmo tempo. Sabemos porém, e o deputado talvez também saiba - mesmo que por meios diferentes dos nossos - afinal trabalha com programa televisivo, que no tipo de sociedade em que vivemos o apelo especular seduz. As pessoas têm preguiça mental, foram criadas como retardadas à frente de uma televisão - e agora do monitor de seu computador, iPhones ou outras parafernálias do tipo.

A verdade é que numa sociedade do espetáculo o poder da imagem, cria espectros de falseamento do real de forma a seduzir mais que as palavras. Não é à toa que os filmes de hoje em dia são rodados a uma velocidade inebriante. A televisão, os comerciais, até mesmo a música - e os sambas-enredo do carnaval carioca são um bom exemplo - tudo, tudo é feito a partir de uma velocidade letargiante. É proibido pensar, a imagem pensa por nós.

Já há algum tempo aliás, acredito que quando não se tem o que dizer usa-se imagens. Essa é a fórmula! típica e manjadinha. Fórmula mágica inclusive com a qual nossos professores-doutores em seus seminários e projeções em powerpoint insistem em querer enganar. Na mediocridade em que se tornou o ensino, com uma prática defasada, uma rodada de seminários ou uma apresentação cheia de recursos tecnológico-letargiantes até que cai bem pra passar o tempo, ou dar um ar de superioridade ao professor-doutor. Confesso, quando vejo professores, ou apresentações de qualquer ordem, se utilizarem da imagem em vez de palavras, desconfio logo de seu conteúdo, pois repito, "quando não se tem o que dizer usa-se imagens". Viu-se isso ontem na Assembléia.

Voltando à Sessão Ordinária. Passado o episódio do vídeo, o discurso do deputado usou outra imagem, não especular, mas arquetípica. A de coitado, de homem sofrido. Aí sim, num claro apelo emotivo como função lingüística. Por três ou quatro momentos vimos cenas de choro, um choro sem lágrimas.

O recurso do simulacro ontem alcançou seu ápice. Este caso aliás, tem-se mostrado como um ótimo estudo do que venha a ser simulacro. A Imprensa tem-se utilizado sobremaneira dele, e ontem pra fechar o ciclo, foi a vez do deputado Wallace.

Em Baudrillard temos que simulacro é um espaço do hiper-real, uma realidade sem referência no real. A partir de situações construimos enunciados que fogem ao real e de tão laminadores acabam por serem mais reais que o próprio real, atingindo o estado de hiper-real. Não há porém, oposição entre real e hiper-real. Não é um campo de batalha entre valores morais de verdade e mentira. Nem entre simulação e realidade. Não se trata portanto, da criação de irrealidade. O que temos são um conjunto de signos e enunciados dispostos de forma sem referência a se mostrarem mais reais que a própria realidade.

A sociedade-cultura contemporânea para Baudrillard é rica em simulacros. Ele aponta a Mídia e a própria Política como manifestações sui generis de simulacros. São campos que se fazem a partir desse falseamento do real. Não precisamos dizer o quanto a Mídia (Baudrillard trata de "mídia" e não necessariamente de "imprensa") é sagaz nesse falseamento. O próprio "caso Wallace" é vendido como um produto de consumo.

Infelizmente ontem tratou-se de um jogo de cena, e mais infelizmente ainda é a constatação de que o povo não lê Baudrillard. Enfim, ervilhas e tomateiros comunicam melhor.
Abraços,
D.

1 comentário

Anônimo disse...

Não ao powerpoint!!! Pq será que eu tbm odeio aula com apresentação de slides? Depois eu volto pra ler o resto da matéria. Bjos
Vivian Lima

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